Monday, January 07, 2013

10 Years, de Jamie Linden (2011)


E de vez em quando lá aparecem aqueles filmes que não podemos obrigatoriamente dizer que são bons ou maus, essencialmente porque dependem quase exclusivamente do grau de empatia que os personagens e/ou situações conseguem estabelecer com o espectador. "10 Years" é um desses casos.

História da reunião de um grupo de amigos a propósito da celebração do 10º aniversário após o final do liceu, "10 Years" perde um terço do filme a apresentar os seus personagens - e são muitos - mas nunca se torna chato, apesar dos estereótipos. As situações em que os personagens se envolvem são plausíveis e nunca se sente que foram ali colocadas a martelo ou que caem no ridículo. E as pequenas histórias de cada um dos personagens, umas mais interessantes do que as outras, ganham força natural, também graças ao imenso talento de um elenco em pleno estado de graça. Channing Tatum, o ator mais bem sucedido de 2012, destaca-se com um misto de vulnerabilidade e simpatia que enternece, mas destacá-lo quando há aqui tão boas atuações seria injusto.

E depois há os momentos, uma sucessão de momentos marcantes e decisivos, não apenas no caminho que os personagens têm de percorrer, mas na definição de certas dificuldades de crescimento, da passagem da adolescência à idade adulta. Momentos que não querem ser marcantes, mas que o são na sua sinceridade e otimismo. Já nos cruzamos com esta viagem noutros filmes, porventura até mais decisivos do que este - e nem sequer se pode dizer que "10 Years" tenha um enredo linear, ou mesmo um enredo de todo - mas, com todos os seus defeitos, consegue cativar todo aquele que foi estudante e, como qualquer outro, deixou assuntos pendentes.

Wednesday, August 22, 2012

Away We Go (Um Lugar Para Viver), de Sam Mendes (2009)


Quando um realizador tenta atingir o estrelato, é normal apostar em dramas pessoais para se promover. São filmes baratos e que normalmente se saem bem no circuito dos festivais, o que permite ganhar nome e reputação. Quando o seu talento é descoberto e, por fim, surgem os convites para grandes produções, raramente esse mesmo realizador regressa aos filmes intimistas, mais próximos de si, ainda que até nos blockbusters se note a sua marca. Sam Mendes entrou de rompante em Hollywood, vindo do teatro. Com a sua primeira obra, "Beleza Americana" ("American Beauty", 2000), chegou viu e venceu, arrecadando, inclusive, o Oscar para melhor filme e realizador. Depois, construiu uma sólida carreira de filmes respeitáveis como "Caminho Para a Perdição" ("Road to Perdition, 2002"), "Máquina Zero" ("Jarhead", 2005) e "Revolutionary Road" (2008), coleccionando prémios e nomeações e consolidando a fama de realizador de produções luxuosas com classe.

Não foi por isso, com algum espanto, que o vi investir num filme que, apesar dos 17 milhões de dólares de orçamento, tem todas as características de um filme independente. "Away We Go" traz-nos a estória de Burt e Verona (John Krasinski e Maya Rudolph, impecáveis), um jovem casal que se prepara para ter o primeiro filho e decide partir em busca do local ideal para o seu crescimento. 

Não são muitos os realizadores que, mesmo tendo em mãos um bom argumento, sabem potenciar devidamente a sua estória. Muitos deles usam truques já habituais neste tipo de produção - e Sam Mendes não evita a habitual banda sonora com voz leve e violinha - para provocar no espectador emoções e conflitos pelos quais os personagens não estão realmente a passar, mas neste tipo de filmes, quem tem personagens bem desenvolvidos consegue quase sempre diálogos e emoções sinceras. Tirando um ou outro momento de exagero - e, acredito, também sirva para descomprimir - "Away We Go" consegue ser desarmantemente real. 


Thursday, March 29, 2012

American Pie, e como a tarte ainda parece fresca...


A saga American Pie conhecerá em breve, e contra todas as probabilidades, mais um capítulo, na forma da reunião dos personagens que começaram a lenda nos idos de 1999. É engraçado perceber que aquilo que, à partida, parecia apenas mais um descerebrado filme para adolescentes se tornou num fenómeno que fez rir, mas também foi capaz de apaixonar uma geração de espectadores.

Todo este fenómeno dá que pensar. No início, era apenas um grupo de adolescentes em busca da sonhada concretização sexual e da afirmação pessoal. Evocavam-se estereótipos e clichés e apostava-se forte nas cenas de cariz mais ou menos erótico, na concretização da fantasia imberbe.

Um ano depois, o tal seguinte, a afirmação pessoal era já coisa do passado e agora o que realmente interessava era o "mais". O mais forte, o mais intenso, o simplesmente mais. Abusava-se nas situações insólitas para esconder a falta de alma. Era para os grupos de rapazes adolescentes aquilo que Over the Top (O Lutador, de Stallone) representava para as assembleias de camionistas: puro deleite onanista.

No terceiro surgia o amor. Sim, mesmo que o grupo de amigos já lá não estivesse todo e das mulheres só restasse a pervertida e terna Michelle (Alyson Hannigan). De todos, seria o mais sentimental, mas nem por isso o mais sentido. Era um Stiffler show, no que melhor e pior o conceito sugere.

Depois... depois veio o imortalizar da saga, com os inevitáveis spin-offs a fazer render o peixe sob a lenda. Não se pretendia muito, não se tinha muito. Mas o bom do pai do Jim (o imortal Eugene Levy) que já tinha sido estela respeitável na comédia dos anos 80, ainda lá estava, a dar o corpo ao manifesto, emprestando alguma integridade e graça a um produto que caminhava definitivamente para o esquecimento.

Treze anos depois da primeira vez, o que leva então o povo a pedir uma reunião desta gente, que mal carreiras teve no pós-tarte? A resposta parece só poder ser dada pela própria saga: gargalhadas escatológicas servidas por personagens com quem aprendemos a rir e... a crescer. Porque, em cada um de nós, há um pouco da inocência do Jim, da sinceridade ingénua do Kevin, da descoberta do Oz, da vontade do Finch e do... bem, talvez de nada do Stiffler. E porque sabemos que, à partida, pelo menos esta reunião de antigos colegas não desiludirá... ao contrário de outras mais reais.

Pelo meio desta multimilionária saga, fica, claro, uma fatia mais esquecida. O "secreto" disquinho dá pelo nome de American Pie Revealed, e consiste em mais de três horas com os bastidores da série original (até ao terceiro tomo, portanto), repleta de histórias, cenas cortadas, e muito, muito material que nenhum fã desejaria perder. Aconselho a compra, vale mesmo a pena.

E, no dia 6, lá nos veremos, agora menos adolescentes, a partilhar momentos menos maduros com os nossos amigos de outrora, e a pensar no que mudou pelo caminho. Até à vista, rapazes.




Monday, March 26, 2012

United, de James Strong (2011)


United não será exatamente um filme esquecido. É, sobretudo, um filme que será encontrado por aqueles a quem primeiramente se destina: os amantes de futebol em geral e os adeptos do Manchester United em particular. A esses, o filme de James Strong chegará, mais dia menos dia.

No entanto, essa será simultaneamente a sua maior força e fraqueza. Muita gente olhará para este telefilme da BBC como um filme apenas para aqueles que gostam de futebol. E não é assim. Muito longe disso.

Em United presenciamos um dos momentos mais dramáticos (e trágicos) da história do futebol, pelos olhos de uma figura incontornável desse mundo, Sir Bobby Charlton, lenda inglesa do desporto rei: o acidente de avião que vitimou, em 1958, grande parte dos "Busby Babes", uma geração de prometedores futebolistas dos Red Devils.

O filme demora um pouco a arrancar e, até certo ponto, parece não querer sair do registo reverencial a que se propõe. Apenas mais tarde percebemos que não é suposto sair-se desse registo porque, apesar de toda a fiel reconstituição de época, das belíssimas simulações de jogos de futebol, do texto muito bem escrito e das interpretações de excelência, United é um filme sobre a paixão pelo futebol e por um clube que se tornou lenda através de muito sangue, suor e lágrimas (literalmente). É nesse sentido que triunfa em grande, pois acaba por tornar-se universal através de um momento da História em particular.

Para além de tudo, dá-nos a conhecer um grandíssimo ator, David Tennant, o Jimmy Murphy do filme, não estranho para os fãs de Doctor Who, mas que aqui atinge um nível de excelência ao alcance de poucos. Um grande ator num dos melhores "filmes de futebol" que alguma vez vi.



A sério?

Só agora é que reparei nisto, mas será que os produtores querem fazer de Wrath of the Titans um filme ainda pior do que Clash of the Titans? Só assim se percebe a escolha de Jonathan Liebesman (Darkness Falls, Texas Chainsaw Massacre - The Beginning, Battle L.A.) para suceder ao muito sobrevalorizado Louis LeTerrier. Há sagas que nascem mortas já à partida...

Monday, March 12, 2012

[Séries Esquecidas] Traveler (2007)


Aqueles que hoje seguem a série White Collar e fazem dela um sucesso que se prolonga há já três temporadas sem dar sinais de cansaço, vêem em Matt Bomer (o Neal Caffrey da série) um perfeito herdeiro de galãs de outras eras como Cary Grant ou Gary Cooper, ainda que mantenha uma cara de menino que o impede, para já, de vôos mais altos.

A série em si também ajuda à criação do mito, com um personagem tão imediato como carismático, num papel que assenta como uma luva ao perfil de Bomer. Mas, antes disso, já outra série tinha despontado o interesse do público pelo texano.

Em 2007, e no auge do sucesso Prison Break, os dramas de ação recheados de twists e cliffhangers começaram a preencher a grelha televisiva, à procura do sucesso deixado aberto por Michael Scofield e companhia. Assim surgiu Traveler, a estória de dois amigos (injustamente?) acusados de colocar uma bomba num museu. A série tinha exatamente as mesmas características de Prison Break e usava também os mesmos truques para prender o espetador ao ecrã. No entanto, o cansaço provocado pela bem sucedida empreitada de Paul T. Scheuring condicionou todas as suas seguidoras e Traveler acabou por sr cancelada ao fim de 8 episódios muito bem engendrados e que valem a pena ver. Mais não seja, porque Matt Bomer mostra-se aí ao mundo e, ao fim e ao cabo, é a sua face de desespero que nos prende ao ecrã.

No YOUTUBE encontram-se todos os episódios, divididos em partes. Aqui fica a primeira:

Wednesday, March 07, 2012

Territories, de Olivier Abbou (2010)


O filme de que hoje vos venho falar é um daqueles que gostaria de ter visto quando estava a descobrir o cinema e tudo me surpreendia. Certamente que, se o tivesse visto essa altura, nunca mais o teria esquecido.

A estória de "Territories" é a de tantos outros filmes de suspense/terror/horror que estamos habituados a receber provenientes de terras do Tio Sam. Grupo de amigos vem do Canadá para os Estados Unidos quando é interpelado por dois sádicos agentes da polícia que decidem fazer-lhes a vida num verdadeiro inferno. No entanto, o realizador evita qualquer tipo de recurso a facilidades, não dando espaço a piadas de ocasião e muito menos a justificações, dando apenas breves pistas para uma relação com a situação de paranóia vivida nos EUA pós 11 de Setembro.

O ritmo do filme, sem concessões, é literalmente duro de aguentar e não é fácil simpatizar com os personagens, que nem sempre são demonizados, pois não se lhes conhecem as motivações para os seus atos.

Aqui e ali notam-se determinadas falhas a nível técnico que parecem, sobretudo, consequencia do reduzido orçamento, mas nem isso incomoda num filme que envolve, levanta duas ou três questões, mas sobretudo, e apesar dos clichés, entretém. E estejam preparados para o final.

O novo Filmes Esquecidos


Depois de alguns meses ausente, eis-me de regresso às lides blogueiras. Note-se que não foi uma ausência voluntária, mas sim suportada por dois motivos diferentes: o excesso de trabalho e o fato de querer dar uma nova roupagem a este nosso cantinho.

Desta forma, além do novo e muito mais funcional layout do blog, este passará a ser organizado de uma forma diferente, dando não apenas espaço aos filmes esquecidos que me deixaram algum tipo de marca, mas também a estórias relacionadas com eles, bem como a algumas novidades do mundo do cinema as quais julgue serem relevantes.

A vós que sempre aí estiveste, o meu muito obrigado pela companhia.

Monday, September 12, 2011

The Lucky Ones, de Neil Burger (2008)

Longe de mim tentar perceber certas lógicas da indústria cinematográfica norte-americana ou até os gostos do público em si, mas a sério que me custa perceber como é que um filme que no elenco tem Tim Robbins, Rachel McAdams e Michael Peña, todos em papéis muito bons, e ainda pode ostentar o sempre apelativo "do realizador de O Ilusionista", passa completamente despercebido. Algo está muito errado quando se parte do princípio que as audiências só procuram super-heróis e remakes e sequelas em detrimento de uma história sensível e original como esta.

"The Lucky Ones" conta a história de três militares de serviço no Iraque que, por razões diferentes, têm direito a um período de férias em casa. Só que o regresso não é exactamente o esperado para nenhum deles o que acaba por juntá-los numa jornada "on the road" que irá criar laços indeléveis entre eles.

A história em si parece batida, mas não estamos aqui no campo moralista de outras obras. Com personagens muito bem-desenvolvidas e situações que equilibram muito bem o drama com a comédia, Neil Burger constrói aqui um filme sensível, apelativo e não raras vezes engraçado. O que mais assusta, porém, é a realidade subjacente a este retrato da sociedade norte-americana actual.

Os actores são fabulosos na forma como se contêm e como dão largas às mais variadas emoções. Nesse particular, o filme é um deleite constituído por momentos geniais atrás de outros ainda melhores.

"The Lucky Ones" é aparentemente um filmezinho que conta uma história mais ou menos simples e que, por certo, os mais inadvertidos vão encarar como apenas "mais um". Para mim, está aqui muito material oscarizável e, muito mais do que isso, inesquecível. Um filme a ver e rever... e rever.


Sunday, August 28, 2011

Waiting For Forever, de James Keach (2010)

E de onde menos se espera, e quando menos se espera, surge a surpresa. Digamos que, no que a comédias românticas diz respeito, os Estados Unidos já há algum tempo perderam o trono para filmes britânicos como Love Actually, Notting Hill ou as corrosivas aventuras de Bridget Jones.
Por outro lado, nem o realizador - o veterano James Keach - nem o argumentista Steve Adams - que desde o desastre Envy não escrevia para cinema - deixavam antever que este Waiting For Forever fosse algo mais do que uma insossa comédia romântica para fazer chorar madalenas arrependidas. Mas é.

Este filme que vos trago hoje conta a história de um jovem artista de rua, Willie (Tom Sturridge), com uma personalidade muito particular: desde o traumático desaparecimento dos pais enquanto criança vive apaixonado por Emma (Rachel Bilson), a vizinha que já não o é há mais de dez anos. Mas isso não o impede de a ver, de fazer dela parte da sua vida. Por isso, segue-a para onde quer que ela vá, Estados Unidos fora. O problema é que a sua timidez impede-o de declarar-se à sua amada pelo que ela nunca se apercebe sequer que ele está por perto. Aproveitando o regresso de Emma à cidade natal e incentivado pelos amigos de sempre, Willie decide que é a hora de revelar o que sempre desejou.

Waiting For Forever agarra o espectador logo no início. Os seus primeiros 10 minutos são fantásticos, tanto a nível de edição (genial genérico) como toda a cena passada com o casal no carro é de uma graciosidade e energia contagiantes. Quase sem querer, o filme agarra-nos logo ali e mantém-nos interessados até final. Apesar de uma ou outra parte previsível, há vários momentos em que a fita se eleva a patamares muitos altos, fazendo-se também valer de um elenco que se completa com os veteranos Richard Jenkins e Blythe Danner e que está em grandíssima forma. Mas o grande mérito do filme irá para o argumento que evita cair nos clichés habituais a este tipo de filme. Se os personagens em si são cativantes e a premissa é interessante, a combinação de drama com humor é quase sempre equilibrada acabando por dar um tom muito genuíno e natural a uma história que, à partida, nem parece muito plausível.

Um último destaque para Tom Sturridge, encantador a fazer lembrar Johnny Depp em Benny & Joon, no qual este já emulava Buster Keaton. O Willie de Sturridge pode não ser totalmente compreensível pelo comum dos mortais, mas permite ver a vida de uma perspectiva diferente. Só por isso, e se por mais não fosse, este belíssimo filme já valeria a pena.

Thursday, July 21, 2011

Senna, de Asif Kapadia (2010)

Falar de "Senna", o filme, é falar de mais do que um filme. É falar de paixão. Minha. De um povo. Do mundo. Regressar a toda uma época que parece já longínqua, não apenas na memória do mundo motorizado, mas do mundo em geral, leva-nos agora a perceber, com a distância que qualquer análise merece, o fenómeno que foi Ayrton Senna, o homem e o piloto.

Logo desde o princípio deste documentário, o que salta à vista é a quantidade e qualidade de imagens de arquivo nunca antes vistas. Imagens dos bastidores das corridas principalmente, mas também da vida privada e familiar do piloto brasileiro, que nos remetem imediatamente para o domínio do real e não da manipulação, porque são imagens não editadas. Este é o principal trunfo do filme. O facto de não se pretender "santificar" Senna. Até nos épicos - e desleais - confrontos com Prost são-nos mostradas todas as imagens, as reacções no momento. Sem análise ou grandes comentários. Tudo para que possamos tirar as nossas próprias conclusões.

"Senna" acaba por ser um pouco um filme sobre a Vida e não apenas sobre a vida de Ayrton Senna. Leva-nos a reflectir variadíssimas vezes sobre variadíssimos valores humanos e também sobre algumas das facetas mais negras do Homem.

Para os fãs do piloto, aqueles que já leram imensas coisas sobre ele, o filme não trará muito de novo. No entanto, o poder das imagens supera em muito todas as palavras que possam ter sido lidas. E nesse sentido, como referi anteriormente, o filme é um portento.

O calcanhar de Aquiles de "Senna" é o esquecimento, por completo, que faz da relação com Gerhard Berger, companheiro do brasileiro na McLaren e seu melhor amigo no mundo da Fórmula 1. As "partidas" pregadas entre são ainda hoje lendárias nos bastidores da F1 e mereciam algum destaque, até porque Senna não era propriamente das pessoas mais sociáveis.

Ainda assim, é uma obra muito completa e muito interessante que merece ser vista, mesmo por aqueles que, como eu, não se identificam muito com desportos motorizados.

Sunday, October 10, 2010

London, de Hunter Richards (2005)

Ora cá está um filme completamente inesperado. Confesso-vos, peguei neste porque não desgosto do Jason Statham e vê-lo com cabelo foi algo que achei caricato. O filme tresandava a independente e esse facto agradava-me. Ainda assim, parti para o seu visionamento sem grandes expectativas, até porque o resto do elenco, constituído por Jessica Biel e Chris Evans, me deixava de pé atrás. Pois bem, amigos, enganei-me redondamente e hoje considero este filme um pequeno achado, uma daquelas pérolas que nos sentimos muito gratos por ter visto.

A história gira em torno de Syd (Chris Evans), um jovem á beira do desespero depois da namorada, agora ex (Jessica Biel, a London do título) o ter abandonado. Já faz dois meses, mas Syd não consegue esquecê-la, muito pelo contrário. Assim, quando sabe que ela se prepara para trocar os Estados Unidos por Inglaterra, decide aparecer, na sua festa de despedida, mesmo sem ser convidado. Com ele leva Bateman (Jason Statham), um bancário que apenas lhe veio trazer droga.

Este não é um filme para todos, reconheço. A verdade é que passamos mais de hora e meia dentro de uma casa de banho, a ver o discorrer da loucura existencial e amorosa de Syd, numa espiral que parece nada trazer de bom. E ele só quer ter coragem para confrontar London. Por ele vai passando uma galeria interessantíssima de personagens que mais não fazem do que contribuir para a sua decadência.

Desengane-se quem pensa que London é um daqueles filmes hiper-depressivos e super-realistas. Nem o filme o quer ser nem o é efectivamente porque há uma energia inesgotável proveniente destes personagens muito bem construídos e dos diálogos muito bem escritos. É essa energia que nos cativa, que nos toca e nos faz desejar saber como acaba a história. Faz-nos querer torcer por Syd apesar de, através de flashbacks, percebermos que tem uma personalidade dúbia. E é aí que está a magia da coisa. London é um filme que promete ficar na memória.

Saturday, October 02, 2010

E agora, na categoria "ninguém quer ver isto a não ser eu..."


Podem não acreditar, mas o terceiro tomo da saga vampírica LOST BOYS (THE THIRST, neste caso), embora saindo directamente para DVD, está a ter óptima recepção por parte da crítica. Eu ando curioso...



Les Chansons D'amour (As Canções de Amor), de Christophe Honoré (2007)

Este entra directamente para a categoria de "filmes da minha vida". E, neste caso, acontece algo não muito comum que é um mesmo realizador dar-me mais de um "filme da minha vida". Já tinha acontecido há uns anos com o sincero "Dans Paris" de que vos hei-de falar aqui quando o revisionar. Aconteceu agora novamente com esta pérola de nome "Les Chansons D'amour".

Sejamos francos: nenhum destes dois filmes é exactamente um "filme esquecido". Ambos tiveram imensa publicidade na imprensa e mesmo a televisão fez eco deles quando da sua estreia em terras lusas. E ambos são relativamente recentes. Chamei estes filmes a este blog principalmente porque o espectador de cinema médio tem alguma resistência por um certo cinema não feito nos EUA ou não falado em inglês, porque grande parte do público que visita este meu cantinho aqui na web vem do Brasil e não sei até que ponto Christophe Honoré (ou mesmo Louis Garrel) é conhecido no "país irmão", e porque não é-me impossível ver filmes destes e não os divulgar ao mundo. Simplesmente impossível.

De Christophe Honoré já tinha visto, além do referido "Dans Paris", "Má Mère", um retrato de uma relação mãe/filho obsessiva que não me encheu as medidas na altura mas que reverei em breve. "Les Chansons D'amour" é quase uma sequela/remake de "Dans Paris" mas em formato musical. Os mesmos temas - a perda, a impossibilidade do amor - estão lá presentes e são já marca de autor de Honoré. A forma como os aborda, não sendo totalmente diferente, ganha um novo fulgor com a introdução das canções, maravilhoso naipe de melodias que não só ilustra emoções como as faz progredir, bem como ao filme. Não serão eventualmente tão marcantes como as de "Once", mas compõem, sem dúvida, um excelente disquito para se ouvir numa tarde chuvosa. A montanha-russa de sentimentos em que nos envolvem, as músicas e o filme, faz-nos sentir automaticamente identificados com o que ali se passa. Todos já passamos por aquilo, talvez nunca o tenhamos sabido é explicar bem. Nesse sentido, Honoré é brilhante, na forma como despe os seus personagens e os enriquece de vida... e de amor.

Uma nota final para o elenco composto por um grupo de actores todos absolutamente brilhantes, de onde se destaca, com naturalidade, Louis Garrel, o herdeiro do herói romântico da nouvelle vague. Só por ele já valia a pena ver o filme.

TRAILER

Monday, September 27, 2010

Clássicos de Garagem (o regresso!)


Não deixa de ter a sua piada ver um filme como The Expendables (Os Mercenários, em tuga) nas salas de cinema em pleno século XXI. Porque The Expendables não é apenas um filme de acção como tantos outros. É um filme de acção que baseou toda a sua campanha publicitária em redor de um elenco quase todo composto por has beens e wannabes do cinema de acção. Gente que há 20 anos estaria (e esteve mesmo) na berra encabeçando uma das centenas de produções da Cannon ou, com um bocadinho mais de sorte, de uma Carolco. Foram tempos de glória, dizem-me alguns amigos, aqueles que viram pontificar estrelas da arte de bem arrear pancada ou destruir cidades como Sylvester Stallone, Arnold Schwarznegger, Jean-Claude Van Damme, Steven Seagal, Jeff Speakman, Chuck Norris, Michael Dudikoff, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Wesley Snipes ou mesmo Bruce Willis nos seus imortais Die Hard. Sim, porque também havia bons filmes entre os clássicos série B de videoclube que alugávamos aos cinco e seis de cada vez, revendo-os até à exaustão.

The Expendables não é um grande filme. Na verdade é um filme mediano que triunfa por apenas querer ser uma homenagem honesta a esses clássicos de videoclube do calibre de Braço Exterminador ou Missão Cobra (o 1 e o 2, já agora). Nem a história tenta ser melhorada, apesar de um excelente monólogo de Mickey Rourke e um bom vilão de Eric Roberts. The Expendables é aquilo que promete, nem mais nem menos, mas com uma ressalva: as cenas de acção são infinitamente melhores do que eram nos anos 80, e Stallone tem a auto-ironia suficiente de se deixar levar uma sova das antigas, daquelas que só ele poderia dar nos filmes de antigamente.

A pergunta que o sucesso que um filme destes (250 milhões de dólares pelo mundo fora falam por si) poderia significar no panorama cinematográfico em si, era a de se não estaríamos perante uma nova moda dos filmes de acção "à antiga". Sinceramente, não sei responder a isso, mas um primeiro indício do que pode estar para acontecer, chegou-me hoje aos olhos, sob o título Havana Heat.

O Tayrona Entertainment Group, que nunca produziu nada de jeito na vida, quer agora fazer-se ao piso e sacar de mais um êxito revivalista. Para isso, nada melhor do que seguir o exemplo do bem-sucedido filme de Stallone e juntar umas quantas estrelas esquecidas. Assim, teremos um Wesley Snipes ainda a contas com problemas relacionados com o fisco, um Michael Dudikoff regressado após um hiato de oito anos, Joey Lawrence e mais uma série de actores especialistas em artes marciais da nova geração. Mas as intenções não ficam por aqui. O chefe da produtora anunciou que enviou recentemente convites a Chuck Norris e a Van Damme para se juntarem à produção e fazerem deste Havana Heat um filme acontecimento no Inverno de 2011. Conseguirão? Aceitam-se apostas, mas o que parece já seguro é que a acção abrutalhada terá mesmo vindo para ficar.


Wind Chill (Arrepio de Morte), de Gregory Jacobs (2007)


Não deve haver género no cinema contemporâneo americano mais prolífico do que o terror. Os mais atentos saberão que, quer nos cinemas, quer no mercado DVD/Blu-Ray, quer por vias menos legais, a quantidade de filmes de terror lançados é tão grande que é até difícil arranjar tempo para vê-los a todos. A verdade é só uma: talvez mais de 90% desses mesmos filmes não merecem que se gaste tempo com eles. Eu diria mais. As fórmulas do cinema de terror americano estão neste momento tão gastas e previsíveis que tudo, ou quase tudo, soa a mais do mesmo.

E é numa altura em que anseio pelo último esforço do M.Night Shyamalan (desta vez apenas como produtor), em "Devil", que me cruzo com esta pérola de que vos venho falar hoje. "Wind Chill" estreou em 2007 nos EUA e no resto do mundo, mas ninguém pareceu dar por isso. Pessoalmente, lembrava-me do cartaz e de ter a presença da Emily Blunt, o que me desperta sempre um pouco a atenção. Mas, de resto, nada. Nem uma luz sobre a história do filme se acendia no mais recôndito canto do meu cérebro.

Apanhei-o uma destas noites no Canal Hollywood, assim por acaso, e fiquei preso ao ecrã logo desde o início, com esta história de dois adolescentes que, tendo de fazer uma viagem de carro juntos, sofrem um acidente, e ficam bloqueados numa estrada secundária, perante temperaturas baixíssimas e... estranhos acontecimentos.

O grande trunfo de "Wind Chill" é que não quer ser mais do que aquilo que realmente pode ser, um exercício de suspense que prende o espectador à cadeira e o assusta aqui e ali. Não pretende reflectir sobre grandes temas ou mesmo sobre a condição humana e as suas atitudes em situações desesperantes. Não. Apenas quer contar uma história, simples quanto baste, povoada pela sugestão e pela emoção. Nós queremos mesmo que aqueles dois seres se safem no final, e, já agora, se não for muito, queremos também perceber o que raio se passa ali afinal.

E o final é compensador o suficiente para que recomendemos o filme aos nossos amigos, isto apesar de não ser uma obra-prima. Ainda assim, é capaz de, apesar de um ou outro defeito, compor uma sessão da meia-noite para não esquecer mais.

Já agora, passa amanhã à noite, de novo, no Canal Hollywood.

Trailer (atenção que revela um pouco demais)

Tuesday, September 07, 2010

The Nines (Os Noves), de John August (2007)

John August é um daqueles nomes que imprime o "selo de qualidade" a qualquer filme. Colaborador recorrente de Tim Burton (foi ele o nome por detrás dos argumentos de Charlie and the Chocolate Factory, Corpse Bride ou Big Fish), assinou também o divertido Charlie's Angels, o desiquilibrado Titan A.E., e o interessantíssimo Go.
Em 2007, aproveitando o bom nome grangeado pelas colaborações com Burton, August decidiu aventurar-se na realização de longas-metragens com este The Nines, um curioso objecto de cinema que importa descobrir.

Três homens, três histórias e três desenlaces diferentes polvilham esta esta espécie de thriller no qual nunca se percebe bem que plano se desenrolam as acções e qual a sua real importância na narrativa. Confuso? Talvez pareça e talvez seja um daqueles filmes que pede mais de um visionamento, mas também é um daqueles que nos revela novos e sumarentos pormenores a cada nova tentativa. E poderá também revelar novas lógicas e novas sensações.

The Nines está magistralmente bem escrito. Mas é um OVNI total no panorama cinematográfico norte-americano actual, e quem o distribuiu deve ter pensado que o nome de Ryan Reynolds só por si chegaria para obter retorno nas bilheteiras. Aqui em Portugal já o vi distribuído, apenas por mais 1 euro, com alguns jornais diários. Correi que este é mesmo bom!

Wednesday, September 01, 2010

The Young Philadelphians (Os Milionários de Filadelfia), de Vincent Sherman (1959)

Mais uma descoberta recente e mais um belo filme a acrescentar à riquíssima carreira de Paul Newman. Tony é um estudante de Direito cheio de sonhos e com a inocência própria de quem ainda não chegou à idade adulta, numa cidade de Filadélfia regida por interesses e aparências. Quando, atraído por promessas de um futuro risonho, aceita adiar o casamento com Joan (Barbara Rush), começa a escalada pela subida na sociedade e o consequente embrenhar nos vícios que antes criticara.

Apesar de ser uma intensíssima crítica social, "The Young Philadelphians" nunca deixa o tom cómico. O equilíbrio entre os dois, juntamente com duas grandes interpretações do casal protagonista, elevam este filme a um patamar superior, talvez não de excelência, mas daqueles que gostamos de ter na nossa colecção e revisitar de vez em quando.

Thursday, August 05, 2010

Houve Uma Vez Dois Verões (2002), de Jorge Furtado

A vocês que me lêem, eu me confesso: não há nada como descobrir pérolas como estas no meio das resmas de filmes que saem cá p'ra fora todos os dias. Quando estamos a vê-los pela primeira vez, no escuro do nosso quarto, quantas vezes no mais silencioso momento da madrugada, é como se nos sentíssemos uns privilegiados por estarmos ali, naquele momento, a saborear aquele filme. Foi o que me aconteceu ontem quando me cruzei com este "Houve Uma Vez Dois Verões".

Já tinha ouvido falar de Jorge Furtado, embora não tivesse ainda visto nada dele. Sabia que, junto com Guel Arraes (de quem vos falarei com certeza em breve), tinha estado na origem de toda uma nova vaga de cinema brasileiro mais preocupado em contar outro tipo de histórias que não apenas as relacionadas com os problemas sociais da sua sociedade. Não que os ignore, mas combatê-los abertamente não faz exactamente parte da sua cruzada.

Este filme que hoje vos aconselho deambula entre a comédia e o drama, sem nunca optar exactamente por um deles, mas sem que isso prejudique a estória em si. Chico (André Arteche) é um adolescente que, numa noite de Verão, é levado a perder a virgindade com Roza (Ana Maria Mainieri), uma jovem que conhece num salão de jogos. Quando esta lhe liga a dizer que está grávida e que quer fazer um aborto, ele sente-se responsável e, apaixonado, oferece-lhe mil reais para ajudar às despesas do aborto. Quando se apercebe que foi ludibriado, parte em busca de Roza para repor a verdade.

Furtado opta por levar o filme de forma aparentemente ligeira, mas sem nunca perder o ponto de vista a que se propôs. O grande trunfo do filme está precisamente aí e no facto de o realizador nunca julgar os seus personagens, arriscando até um final diferente do que seria habitual. Apesar do amadorismo de André Arteche (ou por causa disso), "Houve Uma Vez Dois Verões" transporta consigo uma candura e inocência que já raramente se vê no cinema actual.

Sem ser uma obra-prima, este é, sem dúvida, um filme que merece toda a atenção e apreço.

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Tuesday, August 03, 2010

Once (No Mesmo Tom), de John Carney (2009)

Falar de Once não é fácil porque se cai no risco da redundância. E muito já foi dito sobre este belo poema em forma de filme. A história parece simples: um artista de rua e uma vendedora de flores encontram-se causalmente e começam a partilhar entre si a paixão que nutrem pela música, até ao momento em que decidem experimentar tocar juntos.
Na sua essência, Once é um filme que redefine gerações e a forma como muitas pessoas se vêem retratadas neste quadro realista, eleva-o a filme de culto. É uma daquelas obras que, mesmo não sendo um sucesso massivo de bilheteira, perdura pela eternidade no coração de quem a vê.
Once é um filme sobre o amor, o concretizado mas sobretudo o falhado. Mas é, acima de tudo, uma ode à concretização dos sonhos mesmo que isso implique correr riscos elevados. E é um hino à superação pessoal, à música e a tudo aquilo que ela acarreta consigo.
Glen Hansard e Marketa Irglova são absolutamente fantásticos e a banda-sonora, da responsabilidade do duo, é dos objectos musicais mais ternos que tive oportunidade de ouvir nos últimos anos.
Um filme que apetece ver sozinho e sentir que é só nosso.

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