Thursday, August 05, 2010

Houve Uma Vez Dois Verões (2002), de Jorge Furtado

A vocês que me lêem, eu me confesso: não há nada como descobrir pérolas como estas no meio das resmas de filmes que saem cá p'ra fora todos os dias. Quando estamos a vê-los pela primeira vez, no escuro do nosso quarto, quantas vezes no mais silencioso momento da madrugada, é como se nos sentíssemos uns privilegiados por estarmos ali, naquele momento, a saborear aquele filme. Foi o que me aconteceu ontem quando me cruzei com este "Houve Uma Vez Dois Verões".

Já tinha ouvido falar de Jorge Furtado, embora não tivesse ainda visto nada dele. Sabia que, junto com Guel Arraes (de quem vos falarei com certeza em breve), tinha estado na origem de toda uma nova vaga de cinema brasileiro mais preocupado em contar outro tipo de histórias que não apenas as relacionadas com os problemas sociais da sua sociedade. Não que os ignore, mas combatê-los abertamente não faz exactamente parte da sua cruzada.

Este filme que hoje vos aconselho deambula entre a comédia e o drama, sem nunca optar exactamente por um deles, mas sem que isso prejudique a estória em si. Chico (André Arteche) é um adolescente que, numa noite de Verão, é levado a perder a virgindade com Roza (Ana Maria Mainieri), uma jovem que conhece num salão de jogos. Quando esta lhe liga a dizer que está grávida e que quer fazer um aborto, ele sente-se responsável e, apaixonado, oferece-lhe mil reais para ajudar às despesas do aborto. Quando se apercebe que foi ludibriado, parte em busca de Roza para repor a verdade.

Furtado opta por levar o filme de forma aparentemente ligeira, mas sem nunca perder o ponto de vista a que se propôs. O grande trunfo do filme está precisamente aí e no facto de o realizador nunca julgar os seus personagens, arriscando até um final diferente do que seria habitual. Apesar do amadorismo de André Arteche (ou por causa disso), "Houve Uma Vez Dois Verões" transporta consigo uma candura e inocência que já raramente se vê no cinema actual.

Sem ser uma obra-prima, este é, sem dúvida, um filme que merece toda a atenção e apreço.

Trailer

Tuesday, August 03, 2010

Once (No Mesmo Tom), de John Carney (2009)

Falar de Once não é fácil porque se cai no risco da redundância. E muito já foi dito sobre este belo poema em forma de filme. A história parece simples: um artista de rua e uma vendedora de flores encontram-se causalmente e começam a partilhar entre si a paixão que nutrem pela música, até ao momento em que decidem experimentar tocar juntos.
Na sua essência, Once é um filme que redefine gerações e a forma como muitas pessoas se vêem retratadas neste quadro realista, eleva-o a filme de culto. É uma daquelas obras que, mesmo não sendo um sucesso massivo de bilheteira, perdura pela eternidade no coração de quem a vê.
Once é um filme sobre o amor, o concretizado mas sobretudo o falhado. Mas é, acima de tudo, uma ode à concretização dos sonhos mesmo que isso implique correr riscos elevados. E é um hino à superação pessoal, à música e a tudo aquilo que ela acarreta consigo.
Glen Hansard e Marketa Irglova são absolutamente fantásticos e a banda-sonora, da responsabilidade do duo, é dos objectos musicais mais ternos que tive oportunidade de ouvir nos últimos anos.
Um filme que apetece ver sozinho e sentir que é só nosso.

TRAILER

Monday, January 25, 2010

Vers Le Sud (Para o Sul), de Laurent Cantet (2005)



Laurent Cantet, que nos tem trazido interessantíssimos filmes dos quais se destacam o premiadíssimo Entre Les Murs, trouxe-nos, em 2005, este interessantíssimo Vers Le Sud, que é um cativante drama que nos mostra algumas mulheres de meia idade na procura de refúgio e aventura em Port-du-Prince, capital do Haiti, nos anos 70. A paixão de duas delas por Legba, um adolescente local, trará à tona uma série de sentimentos e memórias escondidos por uma sociedade e por determinadas "regras" que com eles não pactuam.


Charlotte Rampling e Karen Young são soberbas e a realização de Cantet ganha muito ao colocar estes personagens na primeira pessoa, conseguindo uma ligação imediata entre espectador e personagem. Fatará, talvez, um pouco mais de erotismo, para que a obra fique, indelevelmente, marcada nas nossas memórias. A lembrar o estilo de Tony Gatlif, por vezes. Clandestino, marginal, absorvente. Um belo filme.

Hot Rod (Rod Radical), de Akiva Schaffer (2008)

Ora aqui está uma divertida comédia que passou completamente ao lado de tudo e de todos (acho que nem sequer teve estreia comercial no nosso país). Rod é um aspirante a duplo que detesta o pai. Agora, ele tem de arranjar 50.000 dólares para salvá-lo e para que este sinta orgulho no filho. P'ra isso, vai ter de saltar de moto sobre 15 autocarros, proeza nunca antes realizada.
Hot Rod vem na senda de um certo tipo de comédia protagonizada por Will Ferrell (um dos produtores do filme), Adam Sandler ou Owen Wilson, e da escola Judd Apatow, realizador ou produtor da maioria destas fitas. Se nem todas triunfam, em Hot Rod as coisas resultam sobretudo devido à simpatia e identificação que sentimos por estas personagens, isto apesar do nonsense de muitas das situações. É verdade que nem sempre acerta mas é, ainda assim, bastante compensador.


Monday, November 02, 2009

Imagining Argentina (Aconteceu na Argentina), de Christopher Hampton (2003)


Há sempre uma certa curiosidade em ver de que são capazes nas artes da realização, mestres de áreas como a interpretação ou a escrita. Se temos bem presente o desastre da adaptação fílmica que Frank Miller fez da própria obra em The Spirit (2008), basta olhar para o meu último post para se perceber que Sean Penn não é apenas um dos melhores actores vivos, mas um exímeo e contundente contador de histórias.

O caso que vos trago desta vez é o de Christopher Hampton, argumentista galardoado com o Oscar por Ligações Perigosas (Stephen Frears, 1988) e nomeado por Expiação (Joe Wright, 2007). O filme, o terceiro como realizador, centra-se nos anos de ditadura na Argentina e retrata o ocorrido na altura com o "desaparecimento" de milhares de contestatários do regime às mãos do mesmo. Carlos Rueda é um encenador teatral cuja mulher, uma jornalista que se prepara para denunciar os crimes do regime (Emma Thompson), é ela própria vítima do mal que denuncia. Rueda descobre então que tem poderes paranormais que lhe permitem descobrir, pelo menos em parte, descobrir os destinos dos desaparecidos e, por sua vez, tentar descobrir o paradeiro da esposa.

O que poderia resvalar para o sentimentalismo excessivo ou para a fantasia mais banal torna-se, nas mãos de Hampton, numa crítica social contundente. O realizador equilibra bem o drama pessoal com a crítica social e ésse é o grande trunfo desta obra que, não estando isenta de alguns pequenos defeitos (como uma certa falta de equilíbrio narrativo), se destaca muito pela ousadia de fazer denúncia sem cair no sentimentalismo excessivo. É um triunfo também de António Banderas numa interpretação contida e com rasgos de génio, uma das suas melhores em muitos anos.

Monday, October 19, 2009

The Pledge (A Promessa), de Sean Penn (2001)

É engraçado, por vezes, perceber-se que não chega ter nomes como Jack Nicholson, Sean Penn, Sam Shepard, Aaron Eckart, Robin Wright Penn, Mickey Rourke, Vanessa Redgrave, Patricia Clarkson ou Harry Dean Stanton para levar um filme a bom porto em termos comerciais. E é engraçado também ver como as pessoas passam por ele nos videoclubes e acabam por passá-lo à frente como se de uma comédia dos irmãos Wayans se tratasse. A verdade é que, no meio de tantos filmes que saem por ano e que tentam atrair a atenção do espectador das mais variadas formas e meios, A Promessa opta por contar uma história de forma calma, intensa, quase sussurante. Nicholson é Jerry Black, um polícia em final de carreira que, perante um crime hediondo, promete a uma mãe encontrar o assassino da filha menor. Mas os demónios de um fim de carreira ao qual ainda não se habituou e da incompreendida obsessão pela promessa feita vão ser ao mesmo tempo umá vantagem e um obstáculo, não só na resolução de um caso como na própria evolução da vida de Jerry.
Sean Penn caminha sobre gelo fino gerindo com habilidade e, sobretudo, com vigor, uma fábula sobre a vida, as suas desilusões e obsessões, entre o drama humano e o thriller psicológico. Jack Nicholson tem um dos grandes papéis da sua carreira e Robin Wright Penn - hoje colada em demasia ao estereotipo da melher sofrida - destaca-se com sensibilidade e garra num personagem difícil.

mas o grande trunfo de A Promessa será o facto de não nos sair da cabeça durante muito tempo após a sua projecção.

O trailer engana muito mas aqui fica: http://www.reelzchannel.com/movie/209860/the-pledge
Este é bem melhor e tem bem mais a ver com o filme: http://www.spout.com/films/The_Pledge/179999/347546/trailers.aspx

Monday, August 31, 2009

Clássicos de Garagem (parte I) - Porky's (1982), de Bob Clark


Toda gente conhece Porky's. Porque todos fomos adolescentes um dia e, nos anos 80, os tabus que envolviam o sexo eram muito maiores do que agora. Quantos de nós não compraram Playboys à socapa naquele quiosque ou espreitaram pela janela mal fechada dos balneários das miúdas no liceu?


Porky's era tudo o que fazíamos e principalmente o que queríamos fazer nessa altura. Foi um sucesso tremendo, também porque os seus personagens, ainda que caricaturas, mostravam as ânsias e os medos de uma geração. Claro que Porky's, e as suas sequelas, nunca quiseram ser mais do que típicas comédias dos anos 80 com maior índole sexual do que o costume. Mas também não lhes era pedido que fossem obras-primas. E para muitos teenagers desse tempo foi, não só uma pedrada no charco, como um deleite inspirador de brincadeiras e um sucesso em reuniões clandestinas na garagem dos amigos. Além disso, acabou por fazer escola que seria revitalizada no final dos anos 90 com a saga American Pie.


Para mim, e para muitos outros, faz falta na colecção em DVD, ainda que as sequelas deixem um pouco a desejar. Hoje é essencialmente uma recordação nostálgica mas também um certo retrato de como as coisas eram há uns anos atrás. Nunca foram bons filmes, mas quem quer realmente saber disso?






Tuesday, August 18, 2009

A propósito de Never Back Down...

O cinema dos anos 80 e daí por diante trouxe-nos um outro mercado de filmes, essencialmente virado para camada mais jovens. A indústria soube dirigir-se a este público de uma outra forma criando histórias cativantes e produzindo novas estrelas em fitas quase sempre de baixo orçamento tornadas clássicos improváveis. Hordas de teenagers reuniram-se em sessões de meia-noite (e não só) para gerar cultos em redor de filmes como Pesadelo em Elm Street, Sexta-Feira 13, Momento da Verdade, Kickboxer e mais recentemente Velocidade Furiosa ou American Pie. Por regra, estes filmes têm como estrelas actores desconhecidos do grande público, histórias simples mas apelativas, uma cena ou actor carismático a dar a cara. Muitos deles tornam-se estrelas da noite para o dia e a maior parte desaparece com a mesma velocidade que os trouxe ao de cima. Há ainda outros que conseguem o estatuto de "astros de videoclube", na maioria das vezes repetindo o mesmo papel até à exaustão. Mas a sua marca na história (muitas vezes chunga, mas o chunga também é cinema e nem sempre mau...) do cinema está deixada, pelo menos para aqueles que vibraram com as suas desventuras.

Never Back Down (Jeff Wadlow, 2008), é talvez o último caso de sucesso a esse nível. A clássica história do miúdo com problemas de adaptação à sociedade (neste caso gerados pelo sentimento de culpa na morte do pai) que se refugia na aprendizagem de artes marciais, não rendeu milhões nas bilheteiras, mas tem feito mossa por esses downloads afora, tornando Sean Faris estrela com carreira promissora da noite para o dia. O moço tem carisma, mas tem também muito para provar. E se nem Ralph Macchio vingou...

Deixo aqui mais alguns nomes de "clássicos de garagem" que fizeram e fazem as delícias de um público, e das suas estrelas e o que é feito delas. É já a seguir...

O Regresso

Depois deste grande hiato, e de alguns pedidos que me chegaram à caixa de email, decidi retomar este canto onde se fala daqueles filmes que ninguém fala. Tenho visto muitos filmes e descoberto algumas pérolas, e não me sentiria bem comigo mesmo se não as partilhasse. Por isso, sejam bem-vindos de volta!

Wednesday, January 23, 2008

"A Estação" - "The Station Agent" - Thomas McArthy (2003)

Esta review vai ser tão simples e pequena como este filme. Deparei-me com esta pequena obra completamente por acaso perdida algures numa secção de descontos de um hipermercado e algo me disse que seria um filme de que iria gostar.
Não só gostei, como adorei e não paro de recomendar este pequeno grande filme a toda a gente embora este seja um daqueles filmes que são extremamente dificeis de descrever e por isso mesmo ainda se torna mais complicado encontrar uma forma de o recomendar.
É que sabem, "The Station Agent" - " A Estação" além de nem chegar a ter 90 minutos, ainda por cima é um daqueles filmes em que aparentemente não se passa nada. Começa como podia ter acabado, acaba (subitamente) como podia ter começado e pelo meio aparentemente não se passa absolutamente nada. Não tem maus, não tem bons, não tem intriga, não tem (aparentemente) nenhuma love story, não tem tiros, não tem perseguições, não tem efeitos especiais, não tem absolutamente nada daquilo que seria suposto encontrarmos no habitual produto de cinema americano moderno. Em compensação, tem alma e coração.
No meio de um aparente vazio de argumento, este é um filme que nos faz sentir bem e quando o filme acaba ficamos a pensar que gostariamos que continuasse pelo menos por mais uma hora. Gostariamos de ter mais uma hora com aqueles personagens que no meio daquele nada no fundo falam de muita coisa, mesmo quando em silêncio.
Quando me perguntam qual a história deste filme, não sei o que responder. Primeiro porque se calhar a sua força está em ser o espectador a descobrir por si próprio e depois porque o que interessa no filme não é verdadeiramente a sua história, mas sim os personagens. Trés pessoas que aparentemente não têm nada em comum, mas que nos agarram com as suas conversas e nos fazem desejar também fazer parte daquele pequeno grupo de amigos.


Por isso, sem dizer muito mais recomendo este filme a toda a gente que procura desesperadamente por um filme americano que ainda transmita um sentimento real. Vão rir, chorar e no fim sentir saudade de pessoas que apenas existiram no vosso ecran durante 88 minutos. Acima de tudo, se gostarem do filme e ele vos tocar de alguma forma posso garantir que não o irão esquecer tão cedo.
Pela minha parte, nem sabia que este filme existia. Nunca tinha ouvido falar dele e quanto a mim é um excelente candidato para este blog de filmes esquecidos, por todas as razões e mais algumas.
Um pequeno grande filme verdadeiramente mágico pela sua simplicidade e que não só os fará rir e sentir algo, como também certamente os fará pensar sem ser um filme que se arma em cinema intelectual de pacotilha.
Só é pena ser um filme tão pequeno, mas se calhar está aí a sua força e como poderão descobrir por vós próprios adequa-se perfeitamente ao personagem principal.

Trailer
http://www.apple.com/trailers/miramax/the_station_agent/

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0340377/

Poderão certamente encontrar o dvd português certamente perdido algures numa cesta de promoções de um qualquer hipermercado. Não contém extras mas técnicamente é uma boa edição.Se não o encontrarem na sua versão nacional, podem sempre adquiri-lo aqui http://www.amazon.com/Station-Agent-Peter-Dinklage/dp/B0001WTWDI/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&s=dvd&qid=1201109249&sr=8-1 na Amazon americana.

Tuesday, December 04, 2007

O Vale Proibido (Down in the Valley), de David Jacobson (2005)


Ora aqui está um exemplo de obra que tinha tudo para triunfar: um elenco de luxo, um amor impossível como pano de fundo, cartazes de promoção lindíssimos. Mas Down in the Valley freacassou rotundamente nas bilheteiras yankees e já só chegou à nossa presença num direct-to-video que, diz-vos este que se assina, não pode ser perdido! Evan Rachel Wood é Tobe, uma adolescente que vive com o padrasto (David Morse) e o irmão mais novo (Rory Culkin). A sua vida e a do irmão são pacatas mas vazias. Até que Tobe conhece e se deixa fascinar por Harlan (Edward Norton), um misto de cowboy e vagabundo que vive entre a ilusão de ser quem é e de quem gostaria ser. Da paixão improvável à separação inevitável vai apenas um passo. O passo da compreensão. Aquele que fica algures entre o ultrapassar dos nossos preconceitos e a superação de um passado que talvez não tenha ficado definitivamente para trás.

Down in the Valley é romântico mas não lamechas. É inteligente sem ser pretensioso. Mas acima de tudo é sensível e, mais do que apresentar apenas uma história simples, bombardeia-nos com uma série de questões que nos fazem pensar "e se isto me acontecesse a mim?". Será o Harlan muito diferente de mim? De ti? Será a nossa sociedade a ideal para crescer em salutar alegria? Ou estaremos todos a condicionar o nosso próprio crescimento?

Atenção aos extras do DVD. Na edição portuguesa são pouquíssimos mas a entrevista de Peter Travers a Norton e ao realizador David Jacobson é fantástica e vale muito muito a pena.

Uma pérola a descobrir!

trailer: http://www.apple.com/trailers/thinkfilm/downinthevalley/trailer/

Monday, November 26, 2007

Planeta do Gelo (Ice Planet) - Winrich Kolbe - (2001)

Hoje a recomendação vai para um filme péssimo.
Pior ainda, nem sequer é um filme, mas sim um episódio piloto para uma série que não chegou a entrar em produção na altura, isto por volta de 2001.
Então porquê a recomendação, perguntam vocês.
Pois bem, isto hoje é para aqueles para quem o prazer de ver Cinema (com C grande) não tem necessáriamente de passar apenas por grandes obras de reconhecido mérito cinéfilo, artístico ou intelectual. A recomendação de hoje é para o pessoal que tanto se diverte com o "Casablanca" como com o "Plan 9 From Outer Space" sem qualquer preconceito. Neste caso muito específico é uma recomendação para os apreciadores de ficção-cientifica.
Sendo assim, a coisa do dia chama-se "Planeta do Gelo" (Ice Planet) e acima de tudo está agora aqui por ter sido uma moderna tentativa Europeia (Alemã), para se criar um projecto de FC televisiva nos moldes de um Star Trek americano mas mantendo no entanto uma certa identidade europeia, o que só lhe ficou bem.

Além disso no meio de tanta fragilidade cinéfila, alguém deve ter reparado tal como eu, que se calhar este Ice Planet até nem era tão mau quanto parecia á primeira vista, pois curiosamente depois de todos estes anos congelado (ahah), o projecto parece estar a ganhar uma segunda vida através do remake que se encontra já em produção, desta vez no Canadá com o veterano Michael Ironside como protagonista.

Mas falemos do episódio piloto original. Foi realizado pelo veterano de séries televisivas americanas, o alemão Winrich Kolbe, que entre muitas coisas conhecidas filmou não só episódios para todas as séries modernas do Star Trek, esteve envolvido na produção da "Battlestar Galactica" original como ainda por cima dirigiu episódios do famoso "Knight Rider" e de coisas ainda mais kitch como o inclassificavel "Automan" no início dos anos 80.
Posto isto...penso que ninguém se vai surpreender se eu lhes disser que "Ice Planet" é assim como uma mistura entre Star Trek NG com Battlestar Galactica antiga.
Mas há mais !
Imaginem um Star Trek com porrada estilo Galactica original e um design que fica algo entre o Tron, o Star Trek e o Babylon-5. E a cores ! Quer dizer...os filmes normalmente são a cores não é ? Mas este nota-se !
Não me lembro de ver um filme com um estilo gráfico tão colorido desde talvez o Tron. Tron inseria cor por contraste no ambiente azul do filme, Ice Planet mantêm uma linha gráfica semelhante no design mas tem cor por todo o lado. Num único enquadramento arrisco-me a dizer que ás vezes se encontra todo o espectro de cor visivel ao olho humano de uma só vez bem escarrapachado no cenário para o espectador ver bem ! E isto é ainda mais reforçado pelos (horrorosos ?) CGIs terem um visual plástico e colorido fabuloso o que dá a este filme um estilo algures entre o desenho animado e o live-action sem nunca se definir bem mas com resultados surpreendentes na minha opinião. E o mais interessante, é que contrastando com isto o filme tenta ter um ambiente sério ao estilo da primeira série do Espaço 1999.
O surpreendente é que no meio de tanta cor e até de tanto design de guarda-roupa hilariantemente retro, o ambiente "sério" da história não é que é mesmo conseguido ?!

Aliás uma das coisas interessantes deste Ice Planet é precisamente isso, mantém o mistério e uma excelente atmosfera com um fantástico ambiente de exploração do desconhecido durante muito tempo. Infelizmente o final não é propriamente bom, mas há que relembrar que isto seria o episódio piloto de uma série e portanto o final justifica-se. Pode ser que o continuem agora no remake contemporaneo.
Em alguns momentos recordou-me um dos episódios passado na neve do Espaço 1999 e gostei disso.

Gostei também do estilo cinematográfico em que está filmado. Tenta fugir ao modelo televisivo e isso é bom. Ao menos nota-se que tentaram.
E gosto do sabor Europeu que emana do episódio apesar de tanto plástico, há neste Ice Planet algo que o torna bem mais agradável do que uma banal cópia do estilo americano. Aliás acho que este filme só podia ser alemão mesmo, pois o estilo gráfico e o uso da cor remete imediatamente para aqueles videoclips dos 80s, estilo Alphaville e semelhantes. Nostalgia...

Por isso para quem gosta de FC e não entre nisto á espera de uma obra prima do género, tem aqui uma boa sugestão de compra. Porque pelo menos podem contar com um produto que no meio de tanto cliché e tanto kitch consegue no entanto ter um ambiente bem original e atractivo, coisa que não se encontra facilmente na FC moderna.
Embora notem, que é preciso partir para este filme com espírito de série B. Se o tiverem e gostarem de Fc com um sabor retro muito bem recheada visualmente, têm aqui um pequeno produto que os irá surpreender.
Preparem-se apenas para o seguinte:

- Interpretações absolutamente inclassificáveis, (o gajo que faz de contrabandista espacial tipo cigano é absolutamente hilariante de cada vez que abre a boca).
- Uma overdose de CGIs super-coloridos (mas com paisagens alienigenas muito bem conseguidas).
- Cor, muita cor. Até as cenas de neve contêm um caleidoscópio de cor.
- Uma montagem absolutamente do piorio. Consta que o episódio teria duas horas e no entanto a edição em dvd não chega aos 90 minutos de filme. E isso nota-se, pois o ritmo narrativo varia constantemente. Contêm um início tão acelerado que uma pessoa nem tem tempo para conhecer os personagens e muito menos identificar-se com qualquer um deles, pois os acontecimentos que os levarão até ao planeta gelado sucedem-se a um ritmo alucinante ao estilo montanha russa com carro descontrolado.
- Uma banda sonora estranha. Atmosférica mas as vezes não se percebe bem se o compositor saberia sequer para que cena estaria a compor. No entanto, fica memso bem neste filme. Acho.
- Guarda roupa estilo retro. Na verdade uma mistura entre Star-Trek, Babylon-5 e clássicos do cinema FC dos 50´s. Eu adorei.
- Os personagens não têm interesse absolutamente nenhum e alguns chegam a ser absolutamente irritantes, mas por outro lado tem tudo a ver com o espirito da coisa. Por isso...

Resumindo, estão por vossa conta e risco. Eu adorei.
Isto obviamente dentro de uma lógica série B. Não deixa de ser fascinante ver como actualmente graças aos computadores, até um série B e Z pode conter um visual fantástico que jamais seria possível por exemplo nos anos 80 quando este tipo de cinema tinha de recorrer a maquetes tradicionais e efeitos especiais de animação.
Sendo assim, não recomendo que saiam imediatamente de casa a correr para ir comprar isto, mas se gostam de FC, e tiverem 9.95€ para esbanjar da próxima vez que forem ás compras na Fnac, quiserem trazer mais um filminho extra que seja fixe sem gastarem muito dinheiro, então têm aqui uma sugestão a considerar. Excelente imagem e som a condizer. No Extras.
Podem espreitar uma espécie de trailer aqui http://www.youtube.com/watch?v=vi5eK0xbl8A mas não vejam mais do que isto, pois o filme já é pequeno demais e não se arrisquem a apanhar com spoilers noutros sitios.

E já agora uma nota banal. Gostei da capa do dvd na edição portuguesa. Apesar do grafismo amador, e das imagens com péssimos CGI na parte de trás, a fotografia da capa com a rapariga de uniforme transmite imediatamente o ambiente do filme e não engana.

Portanto se eu tivesse que dar uma nota a isto seria assim; se levasse a coisa para o sério:
3 estrelas em 10 pelo esforço.
Mas, como isto é para ser visto com um espirito série Z:
8 estrelas e meia, em 10, porque me divertiu, tem um ambiente retro a lembrar os velhos serials do Flash Gordon e gostava que o filme durasse um bocadinho mais.Se procurarem no imdb, verão que as reviews, variam entre o pessoal que tem a mesma opinião favorável ao filme que eu e o pessoal que simplesmente o acha abominável, (oh pessoal sem sentido de humor que não compreende o espirito de um série Z)http://www.imdb.com/title/tt0269356/usercomments

Divirtam-se e façam uma pausa no cinema a sério.

Thursday, November 22, 2007

Three Wishes - Martha Coolidge (1995)


A carreira de Martha Coolidge tem-se dividido, durante os anos, em fases distintas. Nos anos 80 dedicou-se a teen movies de qualidade (Valley Girl, 1983; Real Genius, 1985), nos anos 90 a um retrato de uma certa América clássica (Rambling Rose, 1991; Angie, 1994) e na primeira década deste século à televisão, tendo dirigido episódios de Weeds, CSI, Shark ou Huff. É da segunda fase que eu sinto mais saudades. Provavelmente porque sempre tive um fraquinho por aqueles dramas pessoais bem sóbrios e reconfortantes, a "fase ninetees" da realizadora norte-americana foi a que me deixou mais saudades. Em especial este Three Wishes (Três Desejos, 1995) que nos apresenta a história de Jane Holman (a saudosa e desaparecida Mary Elizabeth Mastrantonio) e do filho Guinny (Joseph Mazzello, outro desaparecido) vivendo uma vida pacata mas difícil - o patriarca da família encontra-se desaparecido na guerra) numa cidadezinha dos EUA. Um dia, num acto de pura bondade, Jane socorre Jack, um vagabundo (Patrick Swayze) e o acolhe em casa. À medida que o tempo vai passando e a bondade de Jack vai cativando mãe e filho, Jane decide "adoptar" Jack, que afinal pode não ser apenas mais um vagabundo de beira de estrada.


Contar mais sobre este pequeno filme seria criminoso, pois a grande vantagem do cinema de Martha Coolidge sempre consistiu na desenvoltura com que executou este tipo de histórias. Three Wishes é, em última análise, uma parábola sobre a bondade humana. É aquilo que Favores em Cadeia (Pay It Forward, Mimi Leder, 2000) gostaria de ter sido e foi-o até certo ponto, antes de começar a choradeira desenfreada. Onde este filme era lamechas, Three Wishes consegui ser subtil além de arrancar mais uma bela interpretação ao subestimado Patrick Swayze. Mastrantonio e Mazzello também aqui estão em topo de forma e fazem um todo muito coerente e absorvente.


O fracasso comercial e crítico do filme só vem provar que pequenas e simples fábulas como esta já não têm lugar no cada vez mais imediato cinema norte-americano. O filme não é perfeito, eu sei. Mas eu cá gosto! E recomendo a quem quiser descobrir.

Friday, November 09, 2007

"Kiss Me" - António da Cunha Telles - (2005)

Para que eu goste de um filme de contornos românticos, acima de tudo este tem de ter algo que me toque a nível emocional. Coisa que já não acontece há muito tempo por exemplo com os enlatados saídos de Hollywood de onde saiem remakes cada vez mais atrozes de filmes românticos originalmente fabulosos como o Coreano "Il Mare" completamente destruído pelos americanos com o plástico e banal "A Casa do Lago".
Para um filme romântico me interessar ás vezes precisa conter apenas um pormenor na música, ou até uma simples imagem num determinado momento que faça a diferença.
Ou um conjunto de pequenas coisas que tornem especial um argumento.

Este surpreendente filme português teve tudo isso e mais alguma coisa, inclusivamente algumas falhas que o impedem no entanto de ser uma obra prima do cinema comercial nacional, embora quanto a mim ande lá perto por muitos e variados motivos.

Como haveria muito para dizer, vou tentar resumir esta crítica em dois pontos distintos.

Resumindo, coisas que adorei em "Kiss Me" e pelas quais eu acho que este filme não merece ficar esquecido:

- O ambiente a fazer lembrar o filme "Cinema Paradiso", coisa que nunca julguei alguma vez vir a encontrar num filme Português.
É como se fosse um filme do Tornatore mas ao mesmo tempo não o é pois tem um identidade própria bem portuguesa.

- A recriação de ambiente de Tavira nos anos 50.
Passei todas as férias da minha infância em Tavira, toda a familia da parte do meu pai era de lá e viveram aqueles tempos. Sei de cor as historias e os relatos que ouvi ao longo dos anos sobre como eram as pessoas da terra e o ambiente que se vivia. Pelo menos quatro dos personagens deste filme poderiam ser da minha familia, o alfaiate, o contrabandista, a costureira, a tia (que inclusivamente tem o mesmo nome da minha tia de Tavira), etc.
Por isso neste aspecto o filme tocou-me particularmente pois colocou no ecran tudo aquilo que sempre visionei ao longo dos anos pelas historias que ouvia e nas fotos antigas que via.

- A maneira como a musica mantém a coerência da atmosfera ao longo do filme, tanto nos lindíssimos temas originais como na escolha de temas de Jazz, Tangos e melodias orquestrais. Tudo soando fabulosamente num sistema 5.1.
Este filme tem mesmo o melhor som que me lembro de ouvir num filme português. Bem melhor até que algumas pistas em DTS apesar de apenas conter a tradicional faixa em surround normal.

- A maneira como uma história original foi contada usando recriação de cenas de filmes clássicos e integrando-os na narrativa principal como se pertencessem mesmo ali. Achei fabuloso e só tenho pena de não ter visto ainda todos os filmes ali referenciados.

- A fotografia estilo technicolor anos 50 acerta em cheio no que seria perfeito para este filme em algumas cenas chave. Além disso "Kiss Me", contém pelo menos uma mão cheia de imagens que poderiam ser obras fabulosas se tivessem sido apresentadas estáticas em qualquer mostra de fotografia e neste aspecto a Marisa Cruz não poderia ter sido melhor aproveitada pelo director de fotografia.
A imagem da sua personagem deitada nua na palha molhada protegendo o filho com o calor do corpo está incrivel e é um dos grandes momentos visuais do filme.
Surpreendeu-me bastante que apesar dos nús da Marisa , não a tenham explorado eroticamente daquela forma mais explicitamente sexual que muita gente esperava ver.
Pelo contrário, todas as suas cenas de nú são mais sensuais do que sexuais pois toda a sexualidade do filme está presente na personalidade do personagem e o espectador acaba sempre por imaginar mais do que é na realidade mostrado.

- A colagem á Marilyn está excelente. A ideia de Laura passear pelo filme usando cada um dos vestido famosos resulta bem e cria desde logo subtis momentos de humor e um aproveitamento dramático perfeito.

- A história. Simples, poética e emotiva sem cair na telenovela o que fica sempre bem.
Embora não se livre de algumas falhas na estrutura do filme, mas ja comento isso nos pontos "negativos". De uma forma geral, é uma história muito bem aproveitada.

- Os cenários têm um design de produção fantástico. Durante duas horas transportam-me de volta á Tavira da minha infância quando a minha tia Marta no meio dos anos 70, ainda tinha todos aqueles móveis estilo 50´s que a Laura tem na sua casa. Os cenários de estúdio ligam perfeitamente com os exteriores filmados em Tavira.

- As interpretações. É bom constatar que em portugal também temos grandes actores para cinema. O Nicolau Breyner está contidamente incrivel e com um personagem particularmente tocante. O Rui Unas vai longe e tem um personagem de quem se fica imediatamente a gostar. A Clara Pinto Correia é aquela personagem, assim como um actor que eu desconhecia, Manuel Wiborg e que tem outro personagem excelente, isto para não falar da personagem Clarinda que é simplesmente o complemento perfeito para a Laura.
Muito haveria ainda para dizer sobre os actores mas na verdade o casting deste filme é absolutamente perfeito e nem sempre se encontra algo assim no cinema Português.

Só os figurantes estragam a coisa um bocado.Quanto á Marisa, pois é uma boa actriz também apesar de muita gente ainda entrar em ideias negativas pré-concebidas.
Senti varias pequenas "falhas" ao longo do filme, mas de uma forma global tem um trabalho fantástico apesar disso. Ela é Laura.
A meio do filme já nem nos lembramos que é a Marisa Cruz e a química entre ela e o Nicolau é total como se pode ver por exemplo nas cenas do baile.
Penso que a Marisa tem um excelente potencial como actriz, espero continuar a poder vê-la no cinema futuramente e só é pena ainda haver muita gente que pensa que por ela ser Modelo, boa e bonita isso significa que nunca poderia ser fazer um bom trabalho de representação. Pois bem, na minha opinião, a Marisa Cruz neste filme limpa o chão com todas as supostas actrizes que andam neste momento pelas novelas das nossas televisões.
Além disso foi preciso ter lata (e coragem) para arriscar num papel tão emblemático, emulando logo a Marylin Monroe onde inevitavelmente seria alvo de comparações depreciativas. Injustas quanto a mim pois a colagem é total enquanto personagem - Laura - fascinada pela deusa do cinema.

Coisas de que "não gostei":

- Penso que em algumas partes do filme a evolução da personalidade da Laura é demasiado brusca e passa demasiado rápido por mudanças na sua evolução de menina ingénua até Vamp simbolo sexual da cidade. A relação amorosa entre ela e o personagem do contrabandista é demasiado súbita. Numa cena não se passa nada, na seguinte parece que já se relacionavam há muito tempo.

- A primeira cena erótica tem segundos a mais. Parece um comentário estúpido, mas a verdade é que a achei repetitiva pois tentaram prolongar aquilo que na verdade não pretendiam mostrar e acho que não resultou muito bem pois quebra um bocado o excelente ritmo que o filme tem até ali.Pronto, ok, tem a Marisa, essa parte está óptima.

- Tavira tinha dezenas de locais poéticos para serem mostrados e practicamente nada foi usado neste filme. Não usaram o velho coreto, a fachada da praça antiga, o jardim central, entre muitas outras localizações que teriam dado ainda mais atmosfera ao filme. Provavelmente por falta de verba para muitos exteriores. É pena.
Mas a ponte, a ilha,as 4 aguas e o rio estão perfeitos e servem perfeitamente a historia.
Gostaria apenas de ter visto mais pois Tavira tem um potencial cénico romântico incrivel e foi pena não o terem usado.

- Alguns figurantes são terriveis o que quebra um bocadinho a atmosfera perfeitamente credivel do que estamos a ver comprometendo a ilusão de realidade presente no filme até esses momentos.

- Em algumas cenas mais intensas a Marisa tem algumas limitações dramáticas. Quando ela vai pedir ajuda á mãe por exemplo, os apelos do personagem não me convenceram. Se calhar a culpa não foi dela, porque durante todo o filme enquanto actriz principal ela tem momentos verdadeiramente excelentes e parece carregar sem esforço todo o filme nas suas costas competindo sem problemas com actores como o Nicolau.

- O final é um bocadinho brusco, penso que o filme pedia um fim mais emocionalmente trabalhado. Parece que o realizador ou o argumentista precisavam de terminar o filme e decidiram inserir a martelo um final que nem sequer era necessário.
Visto que o argumento até é practicamente todo diferente do livro original, não entendo porque o filme não acabou num dos momentos finais mantendo a mesma narração mas evitando a breve sequência contemporânea no avião que parece completamente deslocada.
Se calhar fui eu que queria que o filme não acabasse assim tão subitamente, pois a verdade é que adorei este "Kiss Me".
Temos aqui um filme Português comercial verdadeiramente digno dessa qualificação no melhor dos sentidos.
O que me leva ao ponto seguinte...

- "Kiss Me", não gosto do titulo. Acho que não resulta apesar de perceber a ligação. Acho-o demasiado forçado um titulo em inglés para um filme como este.
Até porque tenho a certeza que afastou muito público e pode continuar a afastar. Especialmente de uma faixa etária mais avançada que nunca reparará num filme com um titulo em estrangeiro.
E nem morro de amores pelo cartaz demasiado plástico e com pinta de fotografia mais própria para passagem de modelos do que propriamente para representar a atmosfera diferente que se encontra no filme e que é bem mais clássica. Penso que em termos de marketing o cartaz como está foi um erro.

Concluíndo, sinceramente acho que o filme é um espectáculo e infelizmente é um daqueles que se não for mesmo divulgado irá ficar esquecido por muito tempo. Especialmente porque muita gente até nunca o irá ver por puro preconceito, tanto para com o cinema português como para com a Marisa Cruz, o que é pena pois perderão um filme muito bonito, poético, cheio de memórias cinematográficas e personagens inesqueciveis, grandes interpretações, atmosfera perfeita, banda sonora a condizer e (surpreendam-se) uma fotografia fantástica.
Não entendo o porquê dos nossos criticos (daqueles "a sério"), terem batido tanto no filme.
Se calhar é porque é um pequeno grande filme de que o grande público pode mesmo gostar.

Recomendo a compra apesar do Dvd estar editado no maldito formato 4:3 letterbox.
No entanto contém bons menus animados com grande atmosfera, extras a condizer com um bom making of e algumas cenas apagadas comentadas, etc.Só é pena não haver um comentário audio durante o filme todo, pois o realizador faz um trabalho excelente a comentar as cenas apagadas e é mesmo uma grande falha deste dvd não trazer tambem um comentário.Por isso meus amigos das editoras, se lançarem uma edição especial deste filme, desta vez já em 16:9 a sério e com um comentário audio do realizador e de preferencia outro com os actores , já têm aqui um comprador. Filme 5 estrelas.
Especialmente dedicado áquelas pessoas que passam a vida a queixar-se de que o cinema portuga nunca produz nada de jeito.
Vejam este e mudem de opinião de uma vez por todas.
"Kiss Me" é um daqueles que não merece ficar no esquecimento.

E já agora...
Se gostarem do filme, recomendo vivamente o livro com o mesmo nome ("Kiss Me" - Vicente Alves do Ó), porque curiosamente é quase uma história diferente. Pelo menos uns 80% da história presente no romance original não aparecem no filme, além de conter também inúmeras pequenas diferenças no que toca a ambientes e personagens (por exemplo os personagens do Nicolau e do Unas essenciais para o filme, no livro quase nem existem).
É no entanto um excelente complemento para quem gostou do filme, pois a atmosfera está lá.
O livro aborda muito mais em detalhe as cenas passadas no Alentejo de que só encontramos breves fragmentos no início do filme, e contém um final muito mais elaborado e diferente, entre muitas outras coisas.
Resumindo, recomendo vivamente tanto o livro como o filme.

Para mais informação podem consultar mais esta review aqui
http://www.fm-media.net/news02/727.htm

Podem encontrar o filme á venda na Fnac integrado num pack aqui
http://www.fnac.pt/pt/Catalog/Detail.aspx?cIndex=2&catalog=dvdVhs&categoryN=Filmes&category=dvdCaixas&product=5601887487561

Thursday, November 08, 2007

Casa de Areia - Andrucha Waddington (2006)

O Brasil tem vindo de alguns anos para cá a surpreender-me no que toca a produção cinematográfica de qualidade.
Para quem estava habituado aquele imaginário televisivo típico das telenovelas Brasileiras encontrar filmes como "Cidade de Deus", "Carandirú" e "O Homem que Copiava" tem sido uma verdadeira surpresa que supera todas as expectativas ou ideias pré-concebidas.
Acredito que muita gente ainda nem tenha notado, mas do Brasil estão a vir a conta-gotas alguns dos melhores filmes que podemos encontrar actualmente editados em DVD no nosso país.

O último que encontrei e que recomendo vivamente chama-se " Casa de Areia " e anda actualmente perdido numa excelente colecção chamada "Cinema do Mundo" (Lusomundo) que reune filmes de várias partes do globo.
É um bocado complicado contar algo sobre este filme de modo a despertar o vosso interesse, porque na realidade á partida este é um daqueles filmes em "que não se passa nada". Isto na ideia de muita gente que espera sempre uma daquelas histórias lineares de A-a-B com maus e bons e um final feliz.
Este é um filme de emoções em que metade da sua história é mais contada pelos silêncios e pelas mágnificas paisagens do que propriamente por um argumento em que se explica por palavras tudo o que está a acontecer.

Apesar disto, não esperem no entanto um filme pretencioso a puxar para o intelectual de pacotilha. A Casa de Areia não deixa de ser cinema comercial no sentido em que é tudo menos um filme chato, pois a partir do momento em que se conhecem os personagens temos mesmo de saber onde a história nos irá levar. Nesse aspecto o argumento não desilude e é bem criativo na forma como nos conta a história que tem para contar e que basicamente é sobre duas mulheres que vivem perdidas num deserto do Brasil durante mais de 50 anos sem nunca o conseguirem abandonar. Por muito que tentem encontrar o caminho da saída há sempre algo que as impede de deixar o local e os motivos variam do trágico ao poético e quase mágico criando uma atmosfera única para um filme que merece ser descoberto por quem já está farto de enlatados de Hollywood, não tem medo de ver filmes Brasileiros e quer algo mais do que tiros e efeitos especiais.

Em 1910, Vasco um português, leva sua esposa grávida Áurea (Fernanda Torres) e a mãe dela, Dona Maria (Fernanda Montenegro), em busca de um sonho: viver em terras prósperas, recentemente compradas por ele. No entanto o sonho transforma-se em pesadelo quando, após uma longa e cansativa viagem numa caravana, o trio descobre que as terras ficam num lugar totalmente inóspito, rodeado de areia por todos os lados e sem nenhum sinal de civilização por perto.
Após algumas peripécias iniciais as duas mulheres vêem-se sózinhas habitando uma velha casa no meio do deserto na esperança de que um dia alguém por lá passe e lhes indique o caminho para voltarem á civilização.
Por vizinhos apenas têm os habitantes de uma aldeia de pescadores, originada por ex-escravos fugidos que já nem se recordam do caminho por onde chegaram e por isso as duas mulheres vêem-se obrigadas a resignar-se ao seu destino limitando-se a esperar.

O filme acompanha esses largos anos de espera. Viajantes cruzam-se com o destino das mulheres, mas há sempre algo que as impede de partir na companhia dessas pessoas que passam pelas suas vidas. Tudo isto pode parecer um bocado vazio para uma história que é tudo menos chata, mas ao longo do filme sucedem-se os momentos interessantes, alguns de suspanse e muitos momentos poéticos como a cena em que os astrónomos visitam o deserto.
Como disse não posso contar demais porque a beleza deste filme está em descobrirmos por nós próprios o percurso da vida dos personagens principais ao longo de mais de 50 anos.

Esta deslocação temporal permite um trabalho fabuloso das actrizes que se desdobram em vários papeis consoante a época e a geração que o filme pretende retratar. Como tal, por exemplo a Fernanda Montenegro começa o filme a fazer o papel de avó e termina-o como neta 50 anos mais tarde numa composição absolutamente fabulosa. O mesmo vale para a Fernanda Torres.
Em termos de interpretações femininas este filme é absolutamente fantástico. Ao ponto até dos poucos personagens masculinos parecerem quase inexistentes quando comparados com a força dos personagens principais.

Além da história absolutamente hipnótica cheia de momentos poéticos, das interpretações fantásticas o filme conta com imagens mágnificas que retratam o deserto de uma forma quase irreal. Isto aliado a uma fotografia que quase roça o preto e branco em algumas alturas cria um ambiente absolutamente mágico e ao mesmo tempo claustrofóbico apesar do filme estar cheio de imensos espaços abertos.

Curiosamente em alguns momentos iniciais Casa de Areia quase nos parece um filme de Ficção-Cientifica precisamente pelo ambiente totalmente alienigena onde a história se passa. Aquele deserto Brasileiro é verdadeiramente um mundo á parte longe de tudo e de todos.
Em termos de atmosfera o filme faz lembrar em alturas, outras obras como - "O Piano" de Jane Campion, embora eu tenha gostado mesmo muito mais deste " Casa de Areia ". Shoot me.
Como tal recomendo totalmente a compra deste dvd. Ainda por cima a edição Portuguesa custa apenas 15€ e a qualidade técnica da mesma é muito boa, tanto a nivel de imagem como de som, contando ainda com bons extras entre eles um making of muito interessante e algumas entrevistas.

Recomendo vivamente pois este é mais um daqueles filmes que de certeza irá andar muito esquecido, especialmente num país como o nosso onde parece que o que não é blockbuster da moda não existe.

9 estrelas em 10 - Não leva nota máxima porque apesar de tudo gostaria de ter visto um final mais emotivo, menos contido e simbólico do que o apresentado. Mas isto se calhar tem a ver comigo , por isso não se desencorajem, comprem ou aluguem " Casa de Areia " mas acima de tudo vejam este filme.


Thursday, June 14, 2007

Natural City - Min Byeong-Cheon (2003)

Para mim este é um filme de FC especial.
Poderia muito bem chamar-se Blade Runner 2 pois o universo em que decorre a acção é practicamente o mesmo, não só a nível temático como no que toca ao ambiente visual, onde nem faltam os carros voadores e anuncios de neon por entre grandes prédios.

Apesar de ser obviamente muito inspirado no filme de Riddley Scott e quase um plágio na forma como trata o tema dos "replicants", na verdade o filme funciona mais como uma espécie de remake modernizado do que como a sequela directa que na realidade nunca tentou ser.
Por outro lado como já Blade Runner tinha ido buscar precisamente o seu estilo visual a muitas influências orientais, para mim Natural City quase que completa um ciclo e não me espantaria ver um destes dias este filme distribuído a sério no ocidente com um daqueles titulos estilo - Riddley Scott apresenta - Natural City.

Embora no que toca á habitual "sensibilidade" ocidental este seja um daqueles filmes que não conhece meio termo quando falamos de críticas do público.
Ou se gosta ou se detesta, pois este filme tem tudo para ser desvalorizado pelo típico espectador pipoqueiro americanizado. Tem um trailer que promete muita porrada e depois o filme tem apenas duas grandes sequências de acção, uma no inicio e outra no fim. O resto do filme é composto por aquelas coisas chatas em que "nunca se passa nada", nem mete tiros nem perseguições nem nada e apesar de conter alguns momentos esporádicos de acção, eles estão em partes do filme que á primeira vista não pareceriam sequer precisar delas para fazer avançar a história e por isso a um primeiro olhar até podem parecer irrelevantes.









Natural City tem ainda outra coisa que afasta logo o publico das pipocas, (tal como aconteceu com o Blade Runner quando estreou), ou seja, não tem herois.
Aliás, uma das grandes críticas que se fazem a Natural City é o facto de não ter qualquer personagem interessante, ou pior ainda, simpático.
Traduzindo , Natural City não tem um heroi á americana.
Tem um anti-heroi á primeira vista tão antipático (e estúpido), que qualquer pessoa que entre neste filme á espera do típico heroi definido pela habitual fórmula de Hollywood então vai ficar muito decepcionada com a maneira como o percurso do personagem é apresentado neste caso.

Muita gente afirma por isso, que a história de amor que é a base de tudo não resulta porque o público não tem qualquer empatia com os protagonistas.
Eu não posso discordar mais.
A love-story embora nada convencional (tal como em Blade Runner), é aquilo que dá alma ao final de Natural City e o torna num dos mais poéticos dentro da FC desde...bem, desde Blade Runner.
Alguns, criticam o facto da "replicant" pelo qual o heroi está apaixonado ser caracterizada de uma forma demasiado vazia. Mais uma vez não posso estar mais em desacordo.
O personagem tem 3 dias de vida e perdeu todas as faculdades "humanas" não passando apenas de uma boneca "insuflável" avançada. Um brinquedo tecnológico prestes a ser desligado por falta de bateria e apenas com uma leve memória daquilo que foi. Neste aspecto a actriz faz um trabalho fantástico e acreditamos mesmo que ela não passa mesmo de uma boneca prestes a ser desligada, tal é o "vazio" que transparece da sua caracterização.
E é isso que faz com que a trágica história de amor resulte num final que alterna entre o espectacular em termos de sequências de acção e o intimismo trágico de um amor impossível. Para mim este filme tem um dos melhores finais em termos de sentimento dentro da FC moderna, a fazer recordar um pouco a morte de Rutger Hauer no Blade Runner. Quem gostou da poesia desse momento no filme de Riddley Scott, vai gostar da forma como Natural City resolve a relação entre o policia sem rumo e a boneca com tempo de vida contado.









Uma nota para a banda sonora do filme, que apesar de não se fazer notar muito ao longo da história, tem um par de momentos realmente mágicos. Nomeadamente numa breve sequência subaquática a meio do filme (que irá agradar muito aos fãs de filmes como The Big Blue), mas principalmente nos minutos finais da história, acentuando musicalmente a forma poética como o filme termina.

Mas Natural City não é apenas uma história de amor. Ao contrário do Blade Runner, este filme divide-se entre o drama romântico de FC e um filme de acção técnológico.
Na verdade se Natural City tem uma fraqueza , ela está precisamente aqui. Não pelo facto de ter momentos de acção excelentes, mas porque a meio se perde um bocado, pois parece que o realizador está indeciso entre fazer um drama ou um filme de acção e isto resulta numa falha de equílibrio entre os géneros e isso torna-se evidente na própria montagem a partir da primeira metade da história.









Mas grande parte da culpa , está no facto deste filme (para mim) só ter um verdadeiro problema. O vilão não é o Rutger Hauer.
Enquanto que Blade Runner tinha um Roy Batty, Natural City tem um vilão que mais parece fazer parte de um videogame do que propriamente pertencer ao universo em que a história decorre.

O vilão de Natural City é demasiado unidimensional e a sua presença no filme mais parece uma justificação para se conseguir meter acção no filme do que outra coisa qualquer. A sua ligação á base romântica do argumento parece um bocado metida a martelo, precisamente porque o vilão parece estar num outro filme e portanto a sua colagem á parte dramática da história não funciona tão bem como seria desejável.
Por causa disso, as cenas de acção, só não são mais espectaculares porque no meio de tudo isto parece que apenas lá estão para contentar quem espera um filme mais hollywoodesco e como espectadores nunca temos uma ligação emocional entre essas cenas de acção e a parte mais humanizada do argumento por muito que o realizador se esforce.
Por outro lado também não prejudicam o resultado final e quem gostou do estilo de acção presente em filmes como o Pacto dos Lobos, vai adorar as sequências de combate em Natural City.

Por tudo isto, este é um filme para ser visto pelo menos duas vezes, pois tenho a certeza que quem nunca o viu, vai ter exactamente a mesma reacção que eu tive (e muita gente teve) ao vê-lo pela primeira vez.
Devido ao estarmos habituados ao estilo americano de contar histórias, há sempre o risco de quando vemos Natural City pela primeira vez, este nos possa parecer um filme demasiado vazio, especialmente porque inicialmente é dificil encontrarmos uma ligação com os persongens.
O anti-heroi é completamente antipático a um primeiro olhar, a heroina nem se mexe pois está quase sem bateria, o vilão parece que não pertence ao filme, o amigo do heroi ainda é mais antipático que o heroi, a rapariga humana do filme tem potencial mas parece que fica um bocado á parte em tudo, etc, etc, etc. Por isso não se espantem se o filme vos parecer um bocado estranho ao inicio.

Primeiro estranha-se , mas podem crer que depois entranha-se e a cada vez que o revemos encontramos novos pormenores que nos fazem valorizar mais Natural City. Um pouco como Blade Runner também.

Por tudo isto, recomenda-se vivamente a quem gostaria de ter um Blade Runner moderno. Natural City, apesar de ser um clone...se calhar não imita ninguém. E só vão perceber esta afirmação quando virem este filme pelo menos duas vezes.
Um filme que para mim leva 10 valores em 10 sem qualquer hesitação.

E notem, que quando o vi pela primeira vez, não lhe conseguia dar mais de 6 ou 7 e apenas pelo visual e pelo final, mas como já disse este é um daqueles que não pode ser apreciado devidamente numa desprevenida primeira visão. Vão por mim.
Vejam e revejam-no e vão descobrir um dos mais belos e poéticos filmes de FC dos ultimos anos. Tomara Hollywood deitar cá para fora filmes de FC como este. Um verdadeiro filme de culto que merece ser mesmo descoberto. Natural City.

Para uma review com mais imagens, espreitem aqui http://www.shuqi.org/asiancinema/reviews/naturalcity.shtml

Façam-me apenas um favor, evitem o trailer ocidental/americano se quiserem descobrirem o filme por vós próprios. O trailer americano, não só conta a história toda, como ainda explica com todos os detalhes o que acontece com cada personagem, não vá os espectadores das pipocas depois não conseguirem compreender o filme. O trailer americano é outro atestado de estupidez aos espectadores. Evitem-no a todo o custo, pois este filme merece ser descoberto sem ideias pré-concebidas.
Espreitem antes o trailer Coreano original AQUI, http://www.youtube.com/v/nJrrYQ-gt3o pois transmite não só o ambiente real do filme como também um pouco da sua poesia.

Caso estejam interessados em comprar o filme, sugiro a edição Coreana de dois discos que vem numa caixa de lata se ainda a conseguirem encontrar. Não faço ideia se as edições ocidentais contêm algum corte ou não, mas eu não arriscaria, pois o filme contém bastante sangue nas sequências de luta e não sei até que ponto é que não estará cortado, talvez em edições Uk...

De qualquer maneira, Natural City é um filme que não merece andar esquecido.

Tuesday, May 08, 2007

Mas Porquê? (I)

Todos nos perguntamos, a determinado momento, "mas o que deu na cabeça deste gajo p'ra se meter numa coisa destas?" referindo-nos a determinadas opções de actores e/ou outros protagonistas de cinema em geral, quando se metem em "determinadas coisas" que inevitavelmente lhes mancham a carreira. Ainda hoje muitos se perguntam o que anda o Al Pacino a fazer no Gigli ou como raio foi parar o Nicolas Cage ao Wicker Man, por isso decidi abrir esta secção dedicada a gloriosos (e previsíveis) falhanças a todos os níveis na carreira de alguém que muito prezamos.

Esta minha primeira crónica é dedicada a alguém que muito prezo, um daqueles actores que sabemos ser, à partida, sinónimo de qualidade: Ralph Fiennes. E a um realizador de créditos firmados no cinema alternativo, como Wayne Wang. O atentado deu pelo nome deu pelo nome de Maid in Manhattan, ou Encontro em Manhattan como lhe chamaram por cá, e mais não é do que uma reinterpretação da velhinha e gasta história da Cinderella para honra e glória de Jennifer Lopez. Esta interpreta o papel de uma empregada de hotel que se apaixona por um candidato a senador, interpretado adivinhem por quem? Pois é, acertaram. O mais insuspeito dos actores deixou-se convencer pelos dólares e pelo nome de um realizador cuja índole independente permanecia imaculada e entregou-se a um personagem com algum charme é certo, mas praticamente sem expressividade e/ou complexidade, nesta previsível história romântica.


A curiosidade e perplexidade em saber o que faz Ralph Fiennes aqui permanecem intactas e também incógnitas, mas realmente ainda gostava de saber o que deu na cabeça do actor brilhante de obras como The End of the Affair, Strange Days, Onegin ou The Constant Gardener para dar a cara por pastelão destes. Alguém quer arriscar?

Thursday, April 19, 2007

Harsh Times, de David Ayer (2005)


Este título pode não ser tão difícil de encontrar como isso, mas isto de falar sobre filmes que poucos vêem também tem destas vantagens: há alguns que aparecem, apesar da sua pouca repercussão comercial, em todo o lado. Harsh Times está em qualquer videoclube que se preze e, vantagem das vantagens, está quase sempre por alugar. Ainda ontem o vi. O título em português é que me está a escapar mas a capa é igualzinha à imagem que está aqui no topo. Adiante... David Ayer é um jovem argumentista que já deitou as mãos a alguns blockbusters americanos mas que se notabilizou na escrita de dois policiais pós-modernos: o oscarizado Dia de Treino (Training Day, Antoine Fuqua, 2001) e Azul Escuro (Dark Blue, Ron Shelton, 2002). Neste Harsh Times, para o bem e para o mal, isso nota-se. Christian Bale é Jim Davis, um ex-Ranger errático que espera encontrar na polícia de LA o refúgio que precisa para exorcisar velhos demónios. Freddy Rodriguez é Mike Alonzo, o seu melhor amigo, e vive pressionado pela namorada (Eva Longoria) para arranjar um emprego. Os dois encontram-se para uma tarde juntos mas, depois disso, nada vai voltar a ser o mesmo. facetas que se revelam, atitudes inesperadas, relações que se vão deteriorando com a cidade dos anjos como pano de fundo é o que David Ayer nos tem para oferecer. Mas fá-lo com mestria. O argumento, salpicado com um ou outro momento dispensável ou mesmo previsível, é quase sempre milimétrico e visceral e, sobretudo, mostra-nos personagens multifacetados, com as respectivas forças e fraquezas à flor da pele. A ambiência de LA sente-se aqui em toda a sua obscura perfeição fazendo lembrar o já referido Dia de Treino, mas também com ecos de Michael Mann. Às vezes é duro e quando o é, é muito duro, mas no bom sentido. E é surpreendente. Apreciem!

Tuesday, February 13, 2007

O nosso Rocky... para deixar saudades...


Porque o nosso blog não deve só aos filmes esquecidos, eis que venho hoje saudar um dos mais brilhantes regressos de que tenho memória de um dos nossos heróis esquecidos: Rocky Balboa/Sylvester Stallone.
Como apreciador da série Rocky que sempre fui e sou, tenho a noção de que o meu objecto de apreço esteve muitas vezes longe do nível que se exigia. Rocky foi o sucesso-surpresa de 1976, um pequeno filme independente que contava a história de um lutador amador e dos seus sonhos de glória. É uma parábola sobre o sonho americano muito bem escrita por Sylvester Stallone e acabou por vencer o Oscar para o melhor filme do ano.
Rocky II ainda era um objecto de cinema bastante interessante. Desenvolvem-se os personagens de Rocky e Adrian e aprofunda-se a relação entre Rocky e Apollo Creed. Uma boa sequela.
Rocky III e Rocky IV foram, para mim, os títulos mais fracos da saga, com tramas demasiado simplistas, previsíveis e com cedências óbvias à era Reagan. Ainda assim, na minha opinião, o facto de Stallone sempre dar primazia aos personagens em deterimento das situações, acaba por manter estas fitas à tona.
Rocky V opta por desenvolver ainda mais as personagens, fazendo-as evoluir temporalmente e confrontando-as com novos desafios. Rocky é já veterano e, perante a perda de todos os seus bens, é obrigado a voltar a Philadelphia com a família e a repensar a sua vida e a relação com o filho. Rocky V é talvez o título mais subestimado da saga mas acaba por ser bastante superior aos dois títulos anteriores em força narrativa.
A expectativa gerada para este último tomo do périplo de Stallone revestiu-se, desde logo de grande expectativa, dada a idade já avançada do actor, a descendente carreira do mesmo e o facto de muitos acharem que Rocky era um personagem desgatado demais para ressugir. Stallone pego novamente nas rédeas do argumento e da realização e nota-se que investiu um esforço e uma dedicação tremendos. Há um carinho que se nota em todo o desenrolar da história de um Rocky agora dono de um restaurante, triste com o falecimento de Adrian e agora também agastado com o afastamento progressivo do filho (Milo Ventimiglia). Continua o mesmo Rocky humilde, mas agora tem necessidade de voltar a combater, ainda que apenas em combates de bairro. Quando se lhe depara a oportunidade de enfrentar o campeão do mundo em título, não é apenas a vitória que está em questão, mas o superar de mágoas e frustrações e a chance de voltar a ser um novo Rocky preparado para olhar o futuro com um sorriso nos lábios. Rocky Balboa é uma história triste, contada com paciência e calma por um Stallone que já não tem nada a provar a ninguém mas que quer provar a si mesmo que ainda é capaz de muitas e boas coisas. É também uma história de esperança e coragem, não panfletárias, mas sinceras. É também um triunfo a nível formal pois Stallone recuperou as principais marcas dos outros filmes e enquadrou-as aqui de forma perfeita, sem parecerem metidas a martelo. Stallone escreve bem, muito bem e, embora a espaços reparemos num ou outro pormenor que podia ser melhorado, a sensação que fica no final é a de um grande triunfo do Sly argumentista, realizador e até actor. Os mesmos críticos que gozaram este regresso, aplaudiram-no de pé depois de o verem rendendo-se às evidências. E o público provou mais uma vez que nunca abandona os seus heróis mais queridos fazendo deste ROCKY BALBOA um, para muitos, inesperado sucesso de bilheteira. Só apetece mesmo gritar a plenos pulmões: YO ADRIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNN!!!

Monday, January 22, 2007

Do-Ma-Baen (Love Phobia), de Kang Ji-eun (2006)

Tinha planeado recomendar um filme completamente diferente desta vez,não ia ser cinema oriental, e muito menos seria outra love-story. No entanto quando eu pensava que já nada me surpreendia dentro do cinema romântico Coreano eis que ontem me apareceu pela frente outro filme verdadeiramente inesperado. Mesmo agora quase 24 horas depois de o ter visto ainda permanece fresco na minha mente, por muitos e variados motivos e irei certamente revê-lo quando acabar de escrever estas linhas.

O filme chama-se "LOVE PHOBIA" e podem ter a certeza que não chegarão ao seu final sem apanharem algumas surpresas.
Para quem não conhece o género, o cinema romântico da Coreia do Sul tem normalmente algumas características que o tornam muito diferente dos habituais enlatados pseudo-românticos made-in-Hollywood. Para começar os trailers do cinema oriental, não têm a tendência de nos explicar como vai ser o filme todo e imaginem só, até nos escondem as surpresas da história e tudo.

Numa história romântica Coreana, nunca há qualquer garantia de que haverá um final feliz, embora isto não se traduza automáticamente numa história deprimente.
Apenas a noção de final feliz, não implica obrigatóriamente que o par da história tenha de ficar junto no fim e depois os personagens vivam felizes para sempre sobe pena de que os espectadores não gostem do filme caso isso não aconteça. Tudo pode acontecer até ao ultimo minuto de projecção, pois uma das características mais interessantes do cinema romântico coreano, é o facto de existirem muitos finais felizes em que inclusivamente acontecem as maiores desgraças aos protagonistas das histórias mas um espectador acaba de ver o filme sentindo-se , reconfortado, positivo, quase sempre identificado com os personagens e principalmente pensando em temas que jamais esperaria encontrar no momento em que se decidiu a espreitar um destes filmes de olhos em bico. E isto, sem que esses temas lhe sejam atirados á cara estilo panfleto humanitário ao contrário do que é habitual no estilo americano.
Em "Love Phobia" o próprio tema só se dá a conhecer quando este se torna essencial para a história e até entrar em cena o espectador não imagina o que lhe vai cair em cima. E mesmo depois dessa parte se começar a desenrolar, as surpresas não ficam por aí pois de repente o espectador conhece respostas para perguntas que até esse momento nem fazia ideia que tinha e isto é uma das coisas mais empolgantes deste filme.

Tudo isto é muito dificil de explicar sem revelar aquilo que é precisamente a força do argumento. Tal como nada é revelado no trailer, também eu não posso sequer comentar muito detalhadamente o que poderão encontrar pois estaria a estragar-lhes o filme todo. Como habitualmente em filmes do género, o final divide opiniões. Há quem entre no espírito e goste e há quem ache que deveria ter ido por outro caminho. Pela minha parte, não me chateia em absoluto qualquer cliché mais emocional quando tem por base uma história como esta.

O resumo possível da história é o seguinte:
Anos atrás duas crianças, um menino e uma menina conhecem-se na escola. A menina assusta todos os colegas da turma quando insiste em dizer que vem de um planeta distante e que carrega uma maldição pois quem lhe tocar pode sofrer os mais variados acidentes e até correr perigo de vida. O que vem a comprovar-se num par de sequências iniciais quando as pessoas á sua volta sofrem os mais variados acidentes.O único que parece imune á maldição é o menino que fica cada dia que passa mais fascinado pela menina. Especialmente quando repara que ela habita num mosteiro á guarda de um misterioso monge.Um dia o menino fica doente e quando volta á escola descobre que a menina nunca mais voltará a sentar-se ao seu lado.

10 anos se passam.
Agora com 18 anos, agora rapaz, recebe um telefonema de uma rapariga que se vem a revelar como a sua antiga amiga subitamente entrando de novo na sua vida. Após o inicio de uma relação, a rapariga volta a referir que vem de um planeta distante encontrando-se na terra apenas á espera que a sua nave a venha buscar no dia em que ela a conseguir contactar, usando a ajuda do seu grupo de amigos astrónomos amadores que obviamente não a levam a sério. Um dia a rapariga volta a desaparecer misteriosamente.
Mais 8 anos se passam e como anteriormente aconteceu, subitamente ela reentra na vida do rapaz aparecendo do nada após ele ter passado anos contratando detectives privados , tentando em vão, encontrá-la.

E isto é o que se pode contar sem estragar este filme que hoje recomendo.
Quem é a rapariga ? De onde vem ? Porque desaparece sempre durante anos a fio sem ninguém a encontrar ? O que tem tudo isto a ver com UFOs ?...Pois, eu sugiro que procurem as respostas em mais este filme que vai passar completamente despercebido em Portugal. Pelo menos até Hollywood fazer o remake disto e dar cabo do espírito original.

O excelente "Love Phobia" tem tudo isto e mais alguma coisa. Embora se calhar á partida nem pareça um daqueles filmes particularmente especiais, pois o estilo de realização é bastante discreto e a uma primeira visão, pode parecer que se limita apenas a ilustrar a história sem grandes rasgos de criatividade. No entanto isto não impede que o filme conte com algumas imagens lindissimas.
Além disso como habitualmente, o filme, apesar de ser um drama na sua essência, conta no entanto com alguns excelentes momentos de humor discretamente inseridos e que ajudam a humanizar ainda mais todos os personagens.

Podem encontrar no Tube, não só o trailer
mas também todo o filme dividido em 12 segmentos de muito baixa qualidade.
Estão por vossa conta, mas eu jamais veria o filme no Tube assim nestas condições.
Façam-me apenas um favor.
Se estiverem interessados em ver isto como deve de ser, não espreitem os inúmeros comentários sobre o filme que poderão encontrar no Tube (ou no imdb), pois contêm inúmeros spoilers e há lá posts que lhes vão destruir por completo todas as surpresas do filme e subsequentemente a sua força. Estão avisados.

No entanto se por este texto, até acham que vão gostar deste filme não hesitem em encomenda-lo na Play-Asia por exemplo
que foi onde eu comprei a minha cópia, (DTS+Extras (videos, making of))

E pronto, por agora é tudo e vamos lá ver se para a próxima recomendo um filme que não seja oriental. ;)